terça-feira, 9 de março de 2010

Dificuldades em um país com duas línguas

Jornal na entrada da igreja, disponível em duas línguas

Uma das coisas que fico pensando é sobre as dificuldades em trabalhar em um país com duas línguas. Naturalmente, por viver toda minha vida em um grande país que fala a mesma língua, não percebi quantas nações enfrentam esse problema. Moldova é um deles.
Placa da Igreja em língua Romena

A mesma placa em língua Russa

As conferências são na língua russa, mas o país tem como língua oficial o "Moldovano" que na verdade é a língua romena escrito em caracteres russos. Então tinha que haver tradução, e em uma outra sala, sempre há um pastor que traduz tudo para a língua da Moldova. Na igreja as pessoas tem à disposição pequenos rádios, para, caso não falarem russo, poderem ouvir e entender.
Rádios nos bancos para a tradução em romeno

Os convites, folhetos, cursos, avisos, tudo é feito em duas línguas. Afinal a mensagem tem que ser pregada a todo povo, tribo, nação e língua.
Separei algumas dessas publicações para que vocês as conheçam.
Quadro de avisos - duas línguas

Convite em duas línguas

Livro do Pr. Alejandro Bullón distribuído aos visitantes

Телеканал Надежда



Primeira transmissão do 
Телеканал Надежда na Moldova 

Naturalmente os preparativos tinham sido realizados com bastante antecedência, mas em transmissões ao vivo, não basta se preparar, é preciso ser proativo e tentar se antecipar aos problemas. Quando se tem dinheiro sobrando isso é mais fácil, mas quando não se tem, é um pouco mais difícil.
Mas como iniciamos as nossas gravações no dia 19 de fevereiro, fomos corrigindo os erros que foram surgindo e aperfeiçoando, na medida do possível, o que já estava bom.
Foi assim que problemas na internet foram corrigidos. Problemas com o áudio foram solucionados. Problemas com o cenário, em que a cor estava muito pálida, foi corrigido. Imprimimos um novo banner e colocamos atrás do primeiro. Isso acentuou a cor.
Até uma das câmeras que vinha dando problema, e nós achávamos que era o nosso cabo, pois esse tipo de cabo, multicore (ou multi-cabo), tem uma série de pequenos fios dentro de um fio grosso, e é comum que um desses fiozinhos se rompam, causando problemas. Um dia a câmera 3 parou de funcionar. Como faltavam 15 minutos para o início do programa, decidi passar a câmera 1 para o lugar da câmera 3 e continuar com apenas 3 câmeras.
Tiramos a câmera defeituosa e eu a levei para o local onde tínhamos montado o nosso QG. Qual não foi minha surpresa ao ver que a câmera parecia partida ao meio. Na verdade dois parafusos haviam se soltado, e a frente da câmera, havia se separado da parte detrás da câmera. Muito provavelmente pelo transporte nada convensional que usamos para traze-la para a Moldova.
Colocamos os parafusos, reapertamos e ela voltou a funcionar. O problema era simples, graças a Deus.
Mas, uma questão que me preocupava era o uplink, o caminhão com equipamentos que manda o sinal para o satélite. No mês de dezembro cogitamos em trazer o equipamento da América, mas os altos custos com transporte e alfândega, e mesmo a legalização da transmissão em um pais com regras ainda antiquadas e cheio de burocracia, fizeram o Pr. Daniel optar por alugar o equipamento na Moldova.
Uma coisa que eu saberia depois: em todo pais da Moldova existem apenas 3 equipamentos desse tipo: um estava quebrado, o outro pertencia à TV do governo e o terceiro foi o que alugamos.
Portanto não havia opções. E mesmo o aluguel foi feito via uma companhia que não era a dona do equipamento. Durante várias semanas o Marcelo Valado, o responsável por transmissões ao vivo do Hope Channel, tentou falar com os responsáveis, e cada vez mais ele ficava preocupado, pois parecia que ninguém entendia do equipamento.
Eu tentava "apertar" o Pr. Daniel para falasse sério com o pessoal do uplink, que ameaçasse trazer outro da Ucrânia, porque eles se mostravam muito distantes e isso não nos dava segurança. Mas o Pr. Daniel dizia que não tinha outra opção.
Eu sabia que não tinha na Moldávia, mas nos países vizinhos como a Romênia e a Ucrânia, tinha equipamento à vontade, e eu achava que deveríamos deixar alguma coisa engatilhada, no caso dessa companhia da Moldova falhar.
Marcamos um teste de transmissão para a sexta-feira, dia 26 de fevereiro, se houvesse algum problema ainda teríamos quase uma semana para resolvermos os problemas. O caminhão chegou pouco depois das duas da tarde e o teste seria às três, mas visivelmente eles tinham problemas em manusear o equipamento. Também tinham esquecido o cabo para conectar o vídeo e o áudio do equipamento da TV para o caminhão.  Já eram 15:20 quando conseguiram conectar tudo, mas aí, não conseguiam achar o satélite. Finalmente, lá pelas 17:30 acharam o satélite. Mas o nosso tempo reservado para o teste já tinha passado. Pensei comigo, se fosse a transmissão de um jogo de futebol ao vivo, não teria ido para o ar. Só imaginei como funcionava esse tipo de coisa com as TVs locais.
Só no outro dia mandei um e-mail para o Marcelo. Começava assim:

"Oi Marcelo
Eu fico até imaginando o que você está pensando com respeito ao pessoal daqui em Moldova, ou de nossa pequena equipe. Porque deveríamos fazer o teste na sexta-feira, conforme o combinado, e simplesmente o teste não aconteceu.
Mas vamos por etapas. Primeiro deixa-me dar as informações que o pessoal do uplink, com certeza não mandou pra você."

Foto do caminhão de up-link que mandei para o Marcelo

Contei pra ele o que havia acontecido. Mandei as fotos que tirei do caminhão. Passei os tipos e modelos dos equipamentos que tinha dentro do caminhão e pedi um novo dia para fazermos o teste.

Não sei o que aconteceu, mas o Marcelo não respondia, e eu enviei outro no dia primeiro de março, pedindo o teste para o dia seguinte.
Ele respondeu que não seria possível, mas que na quarta-feira poderíamos fazer o teste.
Isso era muito preocupante, porque a transmissão seria na quinta-feira, e se não funcionasse?


O teste do dia 3, quarta-feira foi um desastre. O que deveria durar apenas 15 minutos, durou mais de ½ hora no satélite, com uma imagem horrível, com falhas na imagem e no áudio.
O Marcelo me dava as instruções em português e pedia alguma coisa, mas o técnico dizia: “Esse caminhão não é um laboratório, para ficar fazendo experiências, não vou mudar nenhum cabo.”
Eu tentava mostrar a ele, que tínhamos anos de experiência, e o que estávamos pedindo eram ajustes que ele poderia fazer e não danificaria nenhum aparelho. Mas como me parecia cabeça dura, aquele senhor. Bonzinho, mas teimoso, só servia do jeito dele, e do jeito dele não teria transmissão.
Tentava mostrar isso a ele, mas parece que não adiantava.
O Marcelo pediu que ele ajustasse o equipamento em uma regulagem, para ver se melhorava a coisa.
Ele dizia: “Esse equipamento não faz esse tipo de regulagem, é automático.”
Eu tentava usar uma ilustração para ver se ele entendia:
“Olhe”, eu dizia, “se você uma maquina fotográfica e ela está no automático, muitas vezes você não tem a melhor foto. Então vamos deixar o automático de lado e usar o manual.”
Não adiantava.
A mim pareceu que eles tinham ganhado aquele "brinquedo novo" e não sabiam manuseá-lo corretamente.
Finalmente o técnico sugeriu mudar a freqüência que estávamos trabalhando. Mas o Marcelo disse: “Não vai resolver nada, apenas teremos que gastar mais U$ 8000,00 para termos a mesma qualidade horrível de imagem. Mas podemos fazer o teste de novo se vocês quiserem."
Perguntei pra ao técnico, "se nós fizermos a transmissão na freqüência que você sugeriu e não funcionar, você aceita fazer os testes e mudanças que sugerimos?”
Ele respondeu: “Mas vai dar certo.”
“Ok! Mas e se não der, você aceita as nossas mudanças?”
A resposta foi não. Ele não mudaria.
Marcamos os teste, mas estávamos preocupados.
Comecei a pensar em alternativas, mas o Pr. Daniel não queria pensar em alternativas. ele dizia que sempre tiveram esses tipos de problemas nesse campo. Que o inimigo não queria que o trabalho fosse realizado, que tínhamos que orar.
De fato ele reuniu o grupo que oraram em duplas e depois juntos de mãos dadas e pediram ao Senhor que nos ajudasse a resolver o problema.
No culto daquela noite o Pr. Daniel me contou que estava muito preocupado com a transmissão. E no momento final, na hora da oração, o Pr. Peter Kulakov disse para quem tivesse um pedido especial de oração levantasse a mão durante a oração.
O Pr. Daniel levantou a mão e pediu a Deus que solucionasse o problema que tínhamos e que lhe desse paz.
Ele me contaria mais tarde:
"Enquanto estava com a mão levantada, senti como se alguém tivesse tocado a minha mão. Talvez ninguém tenha tocado, tenha sido apenas impressão. Mas senti como se Deus tivesse tocado a minha mão. E depois daquilo senti uma paz muito grande. Fiquei confiante que tudo seria resolvido."
O teste, um dia antes da transmissão

O caminhão chegou no horário previsto, e a dúvida era:
Será que o Sr. Peter, o técnico aceitaria as nossas sugestões?

Ligamos tudo. Conseguimos a autorização para por o sinal no satélite e agora aguardei o Marcelo.
"Como está a imagem aí na Califórnia, Marcelo?" Perguntei.
A resposta não foi animadora.
"Jonatan, a imagem está horrível. Muito branca. Pixalizando e com o som falhando. E o sinal de vídeo está muito baixo. Com essa imagem será impossível a transmissão."
Eu e o Marcelo tentamos convencer o Sr. Peter a fazer os ajustes que sugerimos, mas não adiantava.
O Marcelo sugeriu usarmos outro meio de transmissão. Gravarmos em um dia, enviarmos por internet e colocar no ar com um dia de atrazo.
Essa era uma sugestão que o Pr. Daniel não queria nem falar a respeito. Todos esperavam que a transmissão saísse ao vivo.
Descobriria na próxima semana, que eu era a pessoa em que eles depositavam a esperança de que tudo seria corrigido. 
Eu? Justo na área de satélite em que eu sempre me mantive distante. Desde o início o Marcelo e o Jorge foram os que mais se dedicaram a essa área.

Primeira transmissão da IASD na Moldova
Líderes orando pelo evangelismo na Moldova

Finalmente chegou o dia, nada poderia dar errado. Não era ainda o primeiro dia de conferencias, mas seria um culto especial. Serviria para todas as igrejas checarem se tudo estava bem. Seria um momento especial de louvor e oração.

O caminhão chegou no horário combinado, mas realmente ainda não tinha certeza de que tudo sairia bem. Por isso havíamos marcado um longo tempo no satélite. Teríamos cerca de duas horas para tentar fazer a coisa funcionar.
Felizmente, o Sr. Peter trouxe o tal cabo que ele dizia ser especial para fazer o teste que havíamos pedido. Com esse teste ele poderia ver o que estava ocorrendo. Demorou um bom tempo para colocarem esse cabo. A mim me pareceu que nunca tinham feito tal teste.
Felizmente, cabo instalado, e agora a imagem...
A imagem apareceu, mas pixalizando, que é quando a imagem para e continua com um monte de quadradinhos na tela. O som também cortava e imagem estava horrível.
Era isso que o Marcelo tinha visto no dia anterior. Os meus temores aumentaram mais ainda.
O Marcelo ligou e perguntou como estava a coisa. E eu lhe contei o que estávamos vendo. Perguntei se valeria a pena fazer o teste no satélite. Ele disse que se fosse com aquela imagem, nós estaríamos pagando para ver a mesma imagem só que há milhares de milhas de distancia.
Mas o Peter foi ajustando e melhorou um pouquinho, mas não o suficiente.
Decidimos fazer o teste com a outra regulagem (outra freqüência), melhorou, mas não o suficiente.
Mas finalmente o Sr. Peter conseguiu uma imagem aceitável. Decidimos não mexer e fazermos a transmissão daquele jeito.
Durante toda transmissão o Marcelo foi pacientemente instruindo o Sr. Peter. Foram cerca de 3 horas no celular, sem desligar, falando com o Sr. Peter. E Deus creio que fez uma mudança na mente do Sr. Peter, pois ele passou a ouvir o Marcelo e seguir todas as sugestões que o Marcelo passava para ele. No final do culto ele diria ao Pr. Daniel, em russo: “não importa a idade”, ele aparenta ter perto de 60 anos, “a gente sempre está aprendendo.”
Embora para nós, técnicos e mais exigentes, a imagem podia ser melhor, as pessoas assistiram e gostaram.
O Pr. Daniel ligou para todos os campos da Divisão Euro Asiática e de Moscou à Bielorrússia; e da Estônia ao Kazacstão, todos estavam felizes com a transmissão. (Nossa! Não é que rimou? E eu não fiz de propósito.)
O frio havia voltado e soprava um vento gelado, mas o coração dos irmãos estavam aquecidos e todos estávamos felizes com a transmissão.
À noite tivemos no jantar um prato especial. Não é assim o meu preferido, mas é um prato tradicional da Moldova. É uma espécie de um pastel, feito com massa de macarrão (pelo menos parece) e recheado com purê de batata ou ricota.
Eu realmente acho pesado para a noite, mas o povo daqui janta mesmo, e eu, como estava com fome, entrei nesse tal pastel.
Às duas horas da manhã acordei. O tal pastel havia feito efeito. Um terrível dor de cabeça me acordou.
Levantei bebi um pouco d’água, fui até o banheiro. Decidi tomar um comprimido para dor de cabeça.
Depois de uma hora percebi que o comprimido não faria nenhum efeito. Minha digestão estava parada. Nada era absorvido, nem remédio.
Mudei de estratégia, tomei água morna, porque não tinha nenhum digestivo à mão. Tentei dormir, porque se eu não dormisse seria pior, mas dormir com dor de cabeça e o estômago embrulhado é difícil. Pensei em vomitar, e acho que teria melhorado, mas não estava com tanta vontade assim. Continuei com o tratamento da água morna.
Dormia, acordava, água morna, dormia. Isso se repetiu até de manhã.
Decidi tomar outro comprimido para dor de cabeça, mas não adiantou nada, parece que a coisa do estômago parado ainda continuava.
Não tomei o “zaftrak” (café da manhã), fiquei só na água morna.
Começaram a ficar preocupados comigo, mas eu disse que não se preocupassem.
A hora do almoço chegou e eles me convidaram, eu decidi não almoçar também. Ainda estava arrotando os tais pasteizinhos do dia anterior.
Decidi sair para comprar alguma coisa, para comer depois. O frio realmente havia voltado e pequenos flocos de neve começavam a cair. Coloquei as minhas mãos no bolso para aquecer.

Segundo dia de transmissão, mas tecnicamente o primeiro
Caminhão do up-link em frente a igreja 4 em Chisinau

Estava chegando o momento do que poderíamos dizer era, tecnicamente, o primeiro dia de transmissão da série evangelística que tinha como nome “Segredos de Deus Revelados”.
O Marcelo ligou uma hora antes do combinado. Acho que ele estava tão ansioso que até se confundiu com o horário, e o coitado acordou uma hora mais cedo. Porque enquanto para mim na Moldova era de tarde, lá na Califórnia, onde o Marcelo estava, ainda amanheceria.
Ele disse em tom de brincadeira:
“Eu poderia ter dormido uma hora a mais. Essa transmissão vai sair cara. Pode avisar ao Pr. Daniel.”
Eu respondi:
“Marcelo, relate no Sábado como horas de auxílio humanitário para a Moldova.”
Nós rimos e ele ficou de ligar uma hora mais tarde.
O Sr. Peter chegou e para demonstrar mais conhecimento do assunto disse que tinha feitos alguns testes em seu laboratório e que hoje a transmissão sairia muito melhor.
Isso foi muito bom, porque realmente saiu muito melhor. Louvado seja o nome do Senhor. Afinal o trabalho é dEle e para Ele.
O frio realmente havia voltado. A neve começou a cair de novo e a temperatura foi lá pra baixo de novo. Ou melhor foi lá para abaixo de zero. Enquanto conversava com o Sr. Peter ou o Marcelo pelo telefone cobria minha cabeça com o capuz de meu casaco. Mas mesmo esse casaco feito para agüentar essas temperaturas não aquecia o suficiente nessa hora.
Pr. Arthur Stelle fala no primeiro dia de transmissão em Chisinau

Esse foi um dia muito importante. Personalidades importantes da igreja da região estavam presentes. Tínhamos conosco o Pr. Arthur Estelle, o presidente da Divisão Euroasiática (ESD), o Secretário e o tesoureiro da Divisão também vieram. Foi bom encontrar o Pr. Billi, porque ele é argentino e era bom falar com alguém em uma língua mais parecida com o nosso português.
Vladimir Hoteanu, ministro da saúde da República da Moldávia

Não apenas personalidades da igreja estavam presentes, mas representantes do governo da Moldova, como um ministro de estado, um deputado e outros representantes de outros setores públicos  estavam presentes. Eles puderam falar da importância da difusão da Bíblia para a sociedade e assistiram todo o sermão.
Como era de se esperar o Pr. Peter Kulakov mencionou a restrição de liberdade religiosa que existiu na época do regime soviético e a liberdade que temos agora.
Realmente acho que isso é digno de nota. Antes, os lideres do governo proibiam a Palavra de Deus e agora permitem o livre uso e até elogiam a Bíblia Sagrada.
Sei que teremos pouco tempo para terminarmos a obra aqui, pois breve chegará o dia que a Bíblia descreve como um “tempo de aflição qual nunca houve.” Esse tempo antecederá a segunda vinda de Cristo. Vamos trabalhar enquanto há tempo.

Depois da transmissão me convidaram para jantar, eu agradeci, preferia voltar para o meu apartamento. A cabeça ainda doía e embora melhor, sentia os efeitos do pasteizinhos. Fui para o quarto e dormi.
Foi uma boa noite de sono. Quando acordei no dia seguinte, ainda poderia dormir mais, mas já passava das 7 horas, então me preparei para o culto. Olhei pela janela e tudo estava branco de novo. Durante toda noite a neve foi caindo e branqueando a paisagem.
Paisagem que vi, olhando pela janela naquela manhã

Rua ao lado da igreja

Naquele sábado, quando cheguei na igreja tudo estava branco e a paisagem voltou a ser linda. Mas o frio também voltara, e as luvas, o chapéu e a roupa tinha que voltar a ser a de inverno mais pesado. Mas a igreja estava cheia. Uma nova era parecia raiar na Moldova.
Pessoas chegando para o culto

Um sábado frio, mas com os corações aquecidos

Tivemos a transmissão praticamente sem problemas. Houve um pequeno corte na transmissão que durou menos de um minuto, mas para quem imaginou que talvez nem tivéssemos transmissão, o que é um pequeno corte?
No programa da noite foi mencionado os países de onde tínhamos resposta de pessoas assistindo. Até no distante Azerbaijão haviam pessoas assistindo. Saberia mais tarde que a liberdade de assistir a cultos, ainda que pela televisão, não é livre em alguns países da Divisão Euro asiática. Pois dois pastores haviam sido presos pela polícia por estarem com a TV ligada na igreja e as pessoas assistindo às conferências do Pr. Peter Kulakov.
O caminhão de up-link no sábado

Mas ao final todos estavam felizes. Podia-se ver no rostos dos pastores que o resultado superara as expectativas. Ou que os objetivos estavam sendo alcançados.
Após a programação conversei com alguns dos pastores e era evidente a satisfação com o resultado. Me elogiaram, como se eu tivesse feito algo extraordinário para que a transmissão fosse um sucesso. Num trabalho como esse, e como em outros também, dependemos das bênçãos de Deus. E aprendi há muitos anos atrás que televisão não é feita por uma só pessoa, mas todo um grande grupo de colaboradores e cada um tem uma importância fundamental.
Naquela noite, como em todas as outras, os pastores se reuniram em uma sala para a oração de agradecimento pelo que Deus tinha feito e pelo que estava fazendo pelo evento. Me lembro do Pr. Biaggi iniciar a oração com um “te agradecemos Pai por...” e durante vários minutos ele foi descrevendo os motivos de agradecimento. A oração era em inglês, de forma que eu podia entender. Mas havia tradução para o russo, para que todos entendessem.
Igreja no sábado nevado

Naquela noite, apos o programa, saí e fui a um supermercado próximo a igreja. O frio de cerca de sete graus negativos não me incomodava. Pequenos flocos de neve caíam sobre o meu casaco impermeável. As mãos estavam protegidas com as luvas e tinha o meu boné com abas para cobrir as orelhas. Enquanto andava por entre os prédios e via as pessoas nas ruas, eu fiquei mais uma vez me questionando: Porque estou aqui Senhor? Será que eu realmente sou necessário aqui? Ou será que o Senhor está me dando a oportunidade de aprender alguma coisa nesse lugar? Ó Senhor, me use de acordo com o propósito que o Senhor tem para mim.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Igreja na Moldova (Moldávia)

Moldova, um pequeno país com pouco mais de 
33.000 km quadrados e 4 milhões de habitantes.

Essa é Chisinau, capital do país com cerca de 800.000 habitantes

Claro que não é todo dia que está nevada. E é cercada de 
vinhedos que hoje, no inverno,  eu só posso imaginar como 
devem ficar lindos carregados no verão.

Mas o inverno também tem suas belezas.

Infelizmente não conheço muito da história de nossa igreja nessa região, mas pretendo descobrir mais e repartir com vocês aqui no meu Blog.


Primeiro colportor Adventista na Molodávia (1933)

Primeira igreja (casa igreja) fundada em 1933

Grupo de colportores no início dos anos 30

Com a entrada da União Soviética, a religião foi restringida. Os colportores não tinham mais liberdade e nem havia liberdade de imprensa. E a Bíblia se tornou um livro proibido. A solução era copiar a Bíblia à mão ou em máquinas de escrever. Ainda hoje no museu da União se pode ver alguns livros desse época.

Bíblia antiga datilografada

Máquina de datilografar usada para datilografar a Bíblia

As Bíblias antigas eram usadas ao máximo, 
porque não se podia conseguir uma outra com facilidade.


Os quatro evangelhos da Bíblia impressos bem pequenos 
para poder passar escondidos da polícia para os 
países dominados pelos soviéticos.

Hinário datilografado

Hinário escrito á mão

Livro de Ellen White datilografado

Trecho da Bíblia copiado a mão e ilustrado com figurinhas

A Moldova que no passado chamava-se República Soviética da Moldávia, enfrentou como qualquer país em tempos soviéticos, muita restrição religiosa. Não era fácil ser Adventista naquela época. Ainda hoje um pequeno museu no prédio da União dos Adventistas na Moldova guarda algumas relíquias, como as que eu coloquei acima. Fico imaginando quanta dedicação, quanto sofrimento e pressão psicológica não viveu esses nossos irmãos.
E pensar que Deus abriu esse país para que a mensagem seja proclamada livremente através dos meios de comunicação.


Outdoor que estão nas ruas de Chisinau


Pode-se ver que há liberdade religiosa quando se anda pela rua e se vê o nosso out door anunciando as conferências à noite. E mais podendo ser transmitida por internet (www.tvhope.net) e por satélite.




Atualmente temos mais de 154 igrejas nesse pequeno país, onde mais de 11.000 membros freqüentam os cultos. Para uma população de pouco mais de 4.000.000 de habitantes, temos então uma proporção de 1 Adventista para cada 375 não Adventistas.

Irmãos da Moldova reunidos em um evento especial


Ainda há muito trabalho a ser feito e portanto aqui estamos para ajudar. Me coloquei à disposição do Senhor. Não sei o que eu, alguém tão pequeno, pode fazer. Será que a minha ajuda fará alguma diferença? Só tempo dirá.
Como eu disse: "Senhor! Estou aqui. Me use como uma luva. Se o Senhor acha que eu posso realizar alguma coisa para ti, aqui estou disponível."

Sede da União dos Adventistas do Sétimo Dia na Moldova



domingo, 21 de fevereiro de 2010

Conferências em Chisinau, Moldova



Quinta-feira, 18 de fevereiro, saí de casa correndo. Já estava atrasado para ir para o metrô. Iria de trem até Sishinau na Moldávia (Moldova).
Ninguém viria me buscar e eu tinha que sair com minha mala pela neve até ao metrô que está cerca de 800 metros de minha casa.
Decidi pegar o ônibus. O primeiro estava lotado e impossível de entrar. O segundo estava lotado, mas consegui colocar a mala no segundo degrau enquanto eu permaneci no segundo.
Dei o dinheiro para que uma pessoa passasse para a outra até chegar ao cobrador. O troco fez o caminha de volta. Agora eu já sabia como as coisas funcionavam no ônibus. Já podia compreender algumas palavras e até alguns números. O meu russo estava progredindo, mas o meu inglês nunca esteve melhor (rsrs).
Alex estava me esperando na estação do metrô.
Tomamos o metro e fomos até a estação Vokzalna, o nome vem de Vokzal (вокзал)
que significa estação de trem.

Estação de trem em Kiev

Chegamos a estação, estava nevando. Tudo parecia bonito com a neve caindo. Havia muita gente na praça e a estação era linda. Dentro então era um cenário de filme.

Meu trem chegando a estação de trem de Kiev no dia da minha partida.

Fui para o portão número dois e logo o trem chegou. Fazia décadas que eu não tomava um trem, portanto era uma experiência mui boa.
Entrei na minha cabine, cabine 5. Realmente o vagão parecia ter saído de um cenário de filme.

Corredor do vagão em que viajei.

Me acomodei e logo chegou mais um passageiro para aquela cabine: era o Yuri.
Ele é professor de uma uversidade em Kiev e conversamos um pouco em inglês.
Havia me esquecido de como as viagens de trem são demoradas. Seria 14 horas naquele vagão. E eu não havia trazido água ou comida.
Depois de uma 1/2 hora a... "tremoça" (como é que se chama a moça que atende dentro do trem?) nos ofereceu um chá. Eu pedi água, e ela me informou que não tinha. Aceitei o chá.
Tomei o chá, que eu acho que era diurético, pois tive que visitar o banheiro do trem várias vezes depois para por o chá e outros líquidos da Ucrânia para fora do corpo.
O Youri gentilmente quis repartir o seu almoço comigo: pão com salchicha.
Tentei explicar a ele que eu não comia carne. Mas ele insistia que eu tirasse a salchicha e comesse o restante.
O problema é que ele havia colocado o sanduíche no microondas e tudo estava junto.
Ele me ofereceu uma maçã. Comi a maçã.
Mas a sede foi aumentando. Eu com sede e todo aquele gelo lá fora.
Fui procurar o vagão restaurante. Pedi água e o homem me indicou as garrafas de refrigerantes.
Tentei explicar: "Vadá, pajalsta!"
Não adiantava, ele apontava para os refrigerantes. Comprei uma Fanta. Perguntei se podia pagar em Grívina e ele disse que sim. Aproveitei e comprei um pacote de bolacha bem pequeninho.


Foi muito interessante a viagem, pois a última vez que viajei de trem já fazia quase 20 anos.
Cheguei em Sichinau as 11:15 da noite. Confesso que estava com sede e fome. O Pr. Daniel Reband foi me buscar. E eu ainda não tinha saído da cabine e ele já estava lá dentro me ajudando a pegar a bagagem. Ele é realmente formidável.

Estação em que cheguei de trem em Chisinau

Fomos para a casa onde ficaríamos hospedados. Todos já estavam dormindo, pois já era perto da 1/2 noite a hora que chegamos. Ele me indicou uma garrafa de água se eu tivesse sede.
Me ajeitei e fui beber a água, afinal estava com sede.
Olhei para a garrafa na penumbra e pensei: "só falta ser água com gaz."
Porque eu realmente não aprecio água com gaz. Prefiro água natural.
Mas bastou rodar a tampa para perceber... com gaz.
Que fazer? Bebi um copo.

Primeiro final de semana em Sishinau
Na manhã fomos para o desjejum.
Deixe-me contar uma coisa pra vocês. Nesta região não vejo muito tomate e pepino, mas... em compensação temos repolho, cenoura, batata, sopa, pão e chá, em praticamente todas as refeições.
E o café da manhã tinha umas coisinhas de repolho e de cenoura com repolho. Realmente a aparência não me agradou. Mas depois de não ter comido praticamente nada no quinta, tinha que começar a sexta com comida.
Tentei a folha de alguma coisa que cobria a cenoura picadinha com algum repolho. Era... doce. Que coisa... diferente. Doce de repolho. Não gostei, mas tive que comer pelos menos o que eu pus no prato.
Ainda bem que tinha chá e pão com manteiga. Comi bastante.
A sexta-feira foi o dia de ajustes finais para a primeira gravação e transmissão via internet. Todos estavam ansiosos.
No almoço, para variar, sopa de repolho com cenoura, pão e chá.
A tarde chegou e iniciamos a nossa primeira transmissão, tudo correu bem. E na segunda sessão eu fiquei na operação do CCU (aparelho que equaliza as cores e abertura das câmeras).
Logo após o jantar. Já adivinho? Sim a mesma coisa do almoço com pequenas variações.

Igreja no Sábado de manhã

Sábado de manhã acordamos cedo e fui para o desjejum. A coisa doce de repolho ainda estava lá. Não tive coragem de comer, mas o chá com pão e manteiga estavam bom.
O Sábado foi abençoado com louvores, cultos, dos quais eu não entendo nada. Mas posso sentir a alegria e a reverência dos irmãos. Os cultos são feitos em russo com tradução para o romeno.

Igreja onde as conferências estão ocorrendo



À tarde, a igreja esteve cheia e o Pr. Peter Kulakov pregou sobre as profecias de Daniel. Não pensem que eu entendi muita coisa não. É que o nome Daniel é bem parecido e algumas palavras fazem com que a gente perceba sobre o que ele está falando.

A equipe tem trabalhado com muito afinco e amor. Certamente Deus recompensará o trabalho deles.

Enquanto estou escrevendo essas linhas acabei de almoçar, e eu estou me perguntando: "Como podem gostar tanto de cenoura e repolho." O almoço foi sopa de... sim... repolho, cenoura e batata. Havia salada de repolho com cenoura e purê de batatas. Que tal?
Vai gostar de repolho, cenoura e batata, lá na Moldávia e na Ucrânia.

Logo em primeiro plano temos as estrelas principais das refeições: repolho e cenoura. Em segundo plano, mas sempre presente está a fantástica batata. E alguém achou que eu estivesse brincando.

Mas acho que vou sobreviver, pois vejo as pessoas e elas estão coradinhas. Acho que esse menu não tem maiores contra-indicações (com excessão da emissão de gazes).
Claro que eu espero que nenhum Ucraniano, Moldovano (acho que assim que se diz) ou pessoa que vive nessa região se sinta ofendido com a minha brincadeira quanto à comida. Afinal de contas em nenhum momento passei fome. Muito pelo contrário, sempre tivemos em quantidade considerável. E afinal de contas, não é o brasileiro que passa a vida toda comento arroz e feijão todos os dias?